Gosto muito de teatro, percebo-o como algo que passa uma mensagem forte e visceral, que tem a capacidade de mexer sempre conosco. Tenho uma visão de espectadora, semelhante ao que sinto em relação à música ( só que a sonoridade, a diversidade e expressão genuinamente cultural é a sua tônica), percebo teatro como uma forte presença do ser humano concreto, onde o ator( seu corpo, sua fala, seus gestos) tudo manifesta expressão e comunicação.
Apesar de já ter assistido a várias peças de teatro, enquanto professora me considero bastante inexperiente.
Além de solicitar que os alunos façam algumas dramatizações, estimular sua ida ao teatro, não sabia fazer nada mais. É lógico que nunca até agora utilizei o teatro, como seria o indicado, segundo os PCN: “O conjunto de conteúdos está articulado dentro do processo de ensino aprendizagem e dividido em 3 eixos norteadores”:
a- Produzir e/ou criação do fazer artístico.
b- Apreciar ou leitura da obra de arte.
c- Contextualizar.
Teatro também é objeto de conhecimento, ou seja, produz conhecimento, têm relação com a filosofia, a história, a literatura, as ciências, etc...
Mas, o teatro ainda propicia todo um trabalho de expressão corporal, fisicalização, improvisação, técnicas de dramatização o que trabalha nosso corpo, tornando-o mais solto e flexível física e psicologicamente, a ponto de percebermos a realidade e a verdade do outro, incorporada e encenada pelo personagem. Foi o que pessoalmente senti nos exercícios em aula, é mágico esse perceber o outro.
Deve ser por isso que todos os regimes totalitários, depois de perseguir adversários e intelectuais, chegam até aos artistas; estes estão a frente, pois já sentiram e perceberam mais do que a massa, pela qual são idolatrados.
Mas gostaria de relatar também o que vivenciei na aula de teatro que já registrei no meu Inventário Criativo.
Nossos alunos do EJA como já de costume foram assistir “Il Primo Mirácolo” de Dario Fon, tendo como ator e diretor Roberto Birindelli, que se apresentou em Torres.
O monólogo trata do primeiro milagre de Jesus, mas satiriza questões aceitas e reproduzidas pela “Sagrada Família”, tais como: a opressão, a fome, o exílio, preconceitos raciais. O personagem de posição agnóstica, fez uma divertida comédia, sem em momento algum hostilizar as religiões. Acontece que uma grande maioria dos alunos da Tot. I e II, com os quais trabalhei, são evangélicos (pentecostais), e se insurgiram quanto ao teor da peça, achando-a desrespeitosa com Jesus. Mas reconheceram o talento do personagem “Professora ele fez tudo com o corpo...” Outros continuavam revoltados, quando uma aluna negra disse que não gostou, pois quando o ator falou em racismo apontou para ela. Mas que ela própria, já fora paga com 20 reais, lá em P.A., no dia e na igreja tal, para dizer aos prantos que tinha uma doença incurável e que o pastor fulano a benzeu...E que ficou curada. Teriam dito que poderia ser artista da rede Globo! Tão bem teria representado!
Diante da minha perplexidade, retomei o assunto da peça, fazendo alguns questionamentos, tendo a certeza que toda a discussão imprevista, foi tão ou mais importante que os exercícios que havia planejado sobre:
Ah, ia esquecendo de dizer que o primeiro assunto, introdutório apenas, seria avaliar sobre o teatro que assistiram...Tema que tomou quase toda aula.
-Contar s/ sua ocupação principal através de mímica;
- Improvisar, apresentando seu nome próprio.
Saí da sala pensando que aula foi um fracasso, inclusive relatei à professora, que disse ter achado aspectos interessantes, ao que me orientou a aprofundar a reflexão teórica, o que foi feito, o que melhorou meu parecer s/ a aula...
Mas, o que mais me deixou satisfeita foi acompanhar a apresentação destes mesmos alunos na atividade: Noite Cultural sobre a Consciência Negra, quando através de mímica e gesticulação, e narrando alguns trechos... Contaram a história do1º enforcamento acontecido no RS, no séc. XIX, quando um negro foi acusado de desviar material de construção na Igreja N.Sra.das Dores, e condenado injustamente à forca.( o ladrão era um rico senhor) O injustiçado teria amaldiçoado a igreja, para que nunca fosse concluída, e se concluída, logo ruísse novamente; fato que dizem tem acontecido.
A história foi lida para os alunos, com o objetivo de mostrar que tal como acontece atualmente, o negro sempre é o acusado diante da suspeita entre duas pessoas de etnias diferentes, caracterizando o racismo.
Foi ótimo ver que participaram teatralizando a mesma.
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