O veículo que permite a travessia do estado de barbárie para a civilização é a educação, porém não qualquer educação. Visto que não é possível instalar um processo civilizatório sem boa dose de repressão, para a qual contribui a instituição escolar, heranças de barbárie excitem no seio de sociedades civilizadas.
Civilização e barbárie não constituem polos que não se comunicam. Tampouco a barbárie é uma característica exclusiva de povos ditos “primitivos”. A violência, a crueldade e a tendência destrutiva são inerentes à condição humana, de tal forma que a civilização contemporânea criou armas mais perigosas do que quaisquer outras jamais imaginadas anteriormente.
Os campos de concentração nazistas, as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, os intermináveis conflitos bélicos no Oriente Médio, os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os inesperados ataques suicidas contra estabelecimentos escolares (Columbine nos EUA, Beslam na Rússia etc.), a tortura dos prisioneiros de Abu Ghraib e Guantánamo, os genocídios no continente africano – tudo isso são fatos recentes a demonstrar que no mundo “civilizado” o mal manifesta-se de um modo muito mais drástico do que em qualquer outro período da história da humanidade.
Por honestidade intelectual, saliente-se que a educação, em si e por si só, não é capaz de impedir o ressurgimento do terror nazi-fascista, mesmo porque, à evidência, antes de Auschwitz já havia educação (rigorosa), religião (responsável por incutir no coração do homem os escrúpulos morais), filosofia (mais de dois milênios de tradição racionalista), poesia etc. A questão que se coloca, então, traduz-se nos seguintes termos: de qual educação necessitamos para a construção de um outro mundo possível (another world is possible), onde os fatos de Auschwitz não tenham lugar?
Não a educação acrítica, historicamente descontextualizada, focada exclusivamente na preparação do aluno para a eficiência técnica e para a subserviência diante de autoridades inescrupulosas; mas, sim, a educação para o exercício da responsabilidade, a afirmação de valores éticos transcendentais, a criticidade, a problematização de situações do cotidiano vivido, o diálogo, a grande celebração do encontro com o outro enquanto oportunidade insubstituível de enriquecimento pessoal e coletivo – enfim, em vez da culpa, do rancor, do medo e da intimidação, faz-se urgente introduzir na prática docente a educação pela doçura e a amorosidade.
A rigor, se ensinar é aprender, não há ensino, só aprendizagem; logo, a aprendizagem (que se processa em um contexto social) é o ato fundante, e não o ensino. Pregar o contrário disso significa propagar o charlatanismo pedagógico. E se a aprendizagem também se faz no “asfalto da vida”, não será no intramuros das obsoletas instituições escolares que impediremos o ressurgimento de Auschwitz, mas através de uma educação democrática que envolva todo o aparato institucional implicado na causa da formação moral e intelectual da presente e das futuras gerações, a saber: família, Igreja, Estado, escola, meios de comunicação de massa, movimentos da sociedade civil organizada, partidos políticos, sindicatos, organizações não-governamentais etc.
Na minha experiência docente concreta poderia listar muitas vitórias com uma perspectiva de outro mundo possível, e conseqüentemente, de outra educação possível, entretanto também no cotidiano escolar testemunhei resquícios do atraso, do preconceito, do autoritarismo e até da doutrina nazi-fascista, onde a tão apregoada “escola pra todos” é uma farsa. Assisti alunos oriundos das classes populares serem literalmente excluídos da escola pública em pleno tempo de inclusão, assisti alunos em modalidades de ensino que pedagógica e legalmente precisam ser tratados de forma diferenciada (EJA), terem sua realidade uniformizada, desconsiderada e desconstituída criminosamente por omissão ou ação, consciente ou inconscientemente em primeira mão pelas autoridades da área educacional.
Pessoalmente estou vivenciando como parlamentar a realidade da população prisional, que na verdade nos remonta à Idade Média, com celas que na verdade são masmorras, sem condições sanitárias e humanas de sobreviver com um mínimo de dignidade. A pena das pessoas imputada pelo Estado é o cerceamento da liberdade mas, na verdade são seres sem chance de se ressocializar, submetidas a tratamento cruel. Com a aprovação silenciosa da sociedade. Idem é o tratamento dado para a população de rua, drogados crônicos, doentes mentais, etc... que não está tão distante como gostaríamos de um holocausto.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário